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domingo, 6 de dezembro de 2009

É melhor para Israel que todos os missionários cristãos voltem para casa

Entrevista com Joseph Shulam

O judeu messiânico Joseph Baruch Shulam é taxativo: Os missionários cristãos em Israel têm usado métodos não-éticos e não-bíblicos para atrair pessoas para suas congregações. Além disso, a estratégia de ajudar judeus a emigrarem e então evangelizá-los é uma velha tática missionária que não funciona e não é honesta: é um programa com propósitos escondidos. Nascido em Sofia, Bulgária, em 1962, circuncidado ao oitavo dia e levado pelos pais para Israel menos de 2 anos depois, Shulam tornou-se discípulo de Jesus aos 16 anos, depois de ter lido vários livros sobre o cristianismo para fazer um trabalho escolar. Casado com Marcia Saunders Shulam, pai de dois filhos e autor de dois volumosos comentários bíblicos, o de Romanos, com 500 páginas (The Jewish Roots of Romans) e o de Atos, com 1.600 páginas (The Jewish Roots of Acts), o notável estudioso da Bíblia (já leu o Novo Testamento centenas de vezes) vive em Jerusalém e é o responsável pela Congregação Roeh Israel. Seu campo de trabalho abrange vários países (Finlândia, Rússia, EUA, Japão, Coréia do Sul etc.) e inclui o Brasil, onde esteve no final de fevereiro. A presente entrevista foi feita pelo correio eletrônico, quando Shulam estava em Curitiba.



Ultimato - Parece que o termo “sionismo” foi usado pela primeira vez em 1893, há 111 anos. O que ele significa precisamente?

Shulam - O povo judeu tem estado no exílio desde a destruição do templo em Jerusalém no ano 70 d.C. Durante a maior parte desse tempo, os judeus foram perseguidos, expulsos de seus países pelos tiranos e reis em toda a Europa, Rússia e até mesmo na América do Sul. A Inquisição Espanhola perseguiu-os pelo mundo todo. Até o fim do século 19, eles não tinham esperança de poder voltar à sua pátria, que Deus dera a Abraão, Isaque e Jacó, e a todos os seus descendentes. Mas, como resultado de brutais perseguições e injustiças da Revolução Francesa, os judeus sentiram que o peso do jugo do exílio já era demasiado para suportar. Vários judeus, como Theodoro Herzl, queriam pôr um fim a essa longa “Via Dolorosa” de sofrimento. Ele pretendia a sua emancipação, constituindo o seu próprio Estado. Chama-se sionismo por causa do desejo de verem as profecias em relação a Sião serem cumpridas.



Ultimato - O sionismo de Theodoro Herzl é o mesmo “sionismo espiritual” de Asher Guinzberg?

Shulam - O sionismo de Theodoro Herzl basicamente terminou com o estabelecimento do Estado Judeu. Estamos vivendo agora uma era pós-sionista. Atualmente os antigos sionistas estão buscando uma nova identidade. Na minha opinião, o novo sionismo deverá incluir não somente os judeus, mas também os cristãos que crêem no cumprimento das promessas proféticas em relação a Israel. Estas se encontram incluídas nas palavras de Isaías como uma parte da reedificação, do retorno e da reivindicação da herança espiritual de Israel, que é uma parte essencial da identidade, do caráter e o do futuro do Corpo de Yeshua, o Messias. O sionismo deve ser espiritual e não somente físico. Já cumprimos a parte física, voltando à terra que Deus deu a Abraão. A dificuldade é agora reivindicar a nossa herança espiritual que, sem sombra de dúvida, inclui Yeshua como o nosso Messias.



Ultimato - Quem são os judeus messiânicos?

Shulam - Os judeus messiânicos são, em primeiro lugar, judeus. Ninguém pode ser um judeu messiânico, sem ser primeiramente judeu. Muitos de nossos irmãos no Brasil e nos Estados Unidos ainda não aprenderam isso. Existem muitos indivíduos que não são judeus, mas querem ser judeus messiânicos — e isso não funciona. É o mesmo que tentar fazer canja de galinha sem a galinha! Porém, se alguém é judeu e crê que Jesus é o Messias, e não abandonou a sua identidade judaica, então ele é um judeu messiânico. Significa que ele é um judeu que tem Yeshua como seu Senhor, seu Mestre e Salvador.



Ultimato - Como o senhor se tornou judeu messiânico?

Shulam - Em primeiro lugar, nasci judeu, filho de pais judeus, fui circuncidado no oitavo dia e meus pais me levaram para Israel quando eu tinha menos de 2 anos. Nada fiz para me tornar judeu. Em segundo lugar, quando me tornei um discípulo de Yeshua Ha Mashiach, em 1962, fui batizado e recebi o Espírito Santo. Deus acrescentou-me à sua Igreja, ou seja, tornei-me um discípulo de Jesus. O processo de minha conversão começou quando um professor, que não é crente, pediu-me para escrever um trabalho sobre o cristianismo, e eu tive de ler muitas obras a esse respeito. Foi isso o que deu realmente início à minha busca pessoal, até que encontrei Jesus, ou, melhor, Jesus me encontrou!



Ultimato - Como o senhor vê a conversão de Paulo?

Shulam - Bem, passei anos estudando Paulo e escrevendo livros sobre Paulo, e agora mesmo estou escrevendo um comentário sobre o livro de Gálatas. Portanto, eu poderia falar bastante sobre Paulo. Ele era um rabino judeu altamente instruído e culto; um membro do governo com autoridade diplomática — de outro modo, não teria sido enviado pelo sumo sacerdote a um país estrangeiro, com ordens de extraditar um judeu crente e trazê-lo para a terra de Israel. Paulo era uma pessoa com total dedicação que tinha “status” oficial. Na estrada de Damasco, o Senhor concedeu-lhe graça especial, aparecendo para ele, mas esta não foi a conversão real do apóstolo Paulo, ao contrário do que muitos pensam. Se lermos Atos 22.10-16, veremos que Paulo converteu-se depois que Ananias lhe pregou o evangelho, depois que seus olhos foram curados da cegueira e as escamas caíram, depois de ter sido batizado e ter tido seus pecados perdoados. Yeshua não disse: “Converta-se, faça uma pequena oração e vá cumprir sua missão”. Ele teve de ouvir o evangelho, arrepender-se, ser batizado e instruído.



Ultimato - Como o senhor interpreta as palavras de Paulo aos Romanos, segundo as quais o endurecimento de Israel não é definitivo e, ao chegar a plenitude dos gentios, “todo o Israel será salvo” (Rm 11.25-32)?

Shulam - Paulo tem uma teologia muito interessante a respeito do relacionamento entre os judeus e os gentios, e ele diz algo chocante para a maioria das pessoas. Já li o Novo Testamento centenas de vezes. Entendo que os gentios foram incluídos no reino de Deus com o propósito de provocar o ciúme dos judeus. Em outras palavras, a missão da igreja gentia, de acordo com o apóstolo para os gentios, é a de provocar o ciúme dos judeus. Paulo baseia-se em Deuteronômio 32.17-21, em que Moisés profetizou que isto é o que Deus iria fazer. Visto que eles o provocaram com sua idolatria, Deus usará os próprios gentios para provocarem os judeus a voltarem para Ele. Paulo diz que, embora os ramos tenham sido cortados da oliveira, Deus tem a capacidade de enxertá-los novamente “e assim todo o Israel será salvo” (Rm 11.26). Não há dúvidas a respeito disso!



Ultimato - O Holocausto contribuiu para amolecer o endurecimento de Israel?

Shulam - Esta é uma pergunta difícil. Eu não sei. Não sei se Deus usou o Holocausto para endurecer ou amolecer o coração dos judeus. Não sei o que teria acontecido se não tivesse havido o Holocausto. Nasci depois do Holocausto. Minha irmã nasceu antes e meus pais tiveram de passar por ele. Portanto, sou de uma segunda geração de sobreviventes do Holocausto. Eu penso que ele não ajudou em nada. Na realidade, foi um dano e um instrumento do Diabo para afastar o povo judeu para mais longe ainda da cruz e de Yeshua. Claro, houve algumas pessoas que se tornaram crentes durante o Holocausto, mas a maior parte do povo judeu endureceu o coração ainda mais. Os alemães eram os assim chamados cristãos; eles iam à igreja aos domingos. Quando os soldados da Wehrmacht e os oficiais nazistas levantavam-se pela manhã, antes de saírem para executarem sua missão, eram abençoados pelo capelão do campo de extermínio, que era luterano, um pastor evangélico! Assim, acho que o Holocausto nada fez de bom para o povo judeu.



Ultimato - O senhor aguarda o segundo advento de Jesus em poder e muita glória? Quando se dará a parúsia?

Shulam - Sim! Espero por isso hoje! Espero que seja agora! Mas, se não for hoje, estarei feliz em recebê-lo em qualquer tempo em que Ele venha! Quanto mais depressa Ele vier, melhor! Mas ninguém sabe o dia, a época e a hora, nem mesmo o próprio Jesus. Se aparece por aí algum pastor e afirma que sabe, então ele sabe mais do que Jesus — por isso deveria ser considerado um falso profeta!



Ultimato - Sabemos que há liberdade de culto em Israel. Pode-se dizer o mesmo quanto à liberdade de proclamação do evangelho?

Shulam - O Estado de Israel não persegue os crentes em Israel, não persegue os cristãos em Israel nem os muçulmanos. É muito liberal e dá a todos o direito de acreditar no que quiserem. O problema é que eles interpretam “liberdade religiosa” de um modo diferente. Em Israel, as pessoas não têm o direito de exercer pressão ou convencer alguém para mudar a sua crença, usando suborno, coerção ou aproveitando-se da fraqueza alheia. Concordo 100% com isso. Acho que o cristianismo é uma fé, e não uma religião. Portanto, uma pessoa somente pode tornar-se um crente se crer, ouvir o evangelho, estudar e conhecer a Jesus — e não por darmos alimentos, roupas ou qualquer outro bem material. A idéia de ajudar os judeus a emigrarem e então evangelizá-los é uma velha tática missionária que não funcionou e jamais funcionará. É um programa com propósitos escondidos; não é honesto.



Ultimato - Israel precisa de missionários cristãos?

Shulam - Não acho que Israel precisa de missionários cristãos. Acho que seria melhor para Israel se todos os missionários cristãos voltassem para casa. Por quê?

1) Eles trazem consigo denominações, o que causa divisões — no Brasil, nos Estados Unidos e onde quer que seja. Os pentecostais e os carismáticos acham que os batistas não são salvos. E é assim. Agora, Deus está restaurando e trazendo o povo judeu de volta à sua terra. Então, precisamos de mais divisão ou de mais unidade? Estamos vindo dos mais diversos países, línguas, cores, para nos reunirmos na terra de Israel — as profecias dizem isso também. Deus nos dará um Pastor e fará de nós um só povo. Jeremias e Ezequiel o afirmam claramente. Como poderemos nos tornar um só povo sob um só Pastor se nos tornarmos presbiterianos, católicos, pentecostais, todos brigando uns com os outros?

2) Os missionários cristãos em Israel têm usado métodos não-éticos e não-bíblicos para atrair pessoas para as suas congregações. Eles buscam os fracos e os pobres, e não os educam. Eles têm usado meios materiais para pressioná-los a se tornar membros de suas igrejas, e isso não é bom.

3) Creio que o povo judeu será capaz de apresentar Jesus, o Messias, muito melhor sozinho, pois sinto que Jesus precisa tornar-se uma palavra familiar para o povo judeu, sem misturar os gentios nesse quadro. Na história de José, quando ele quis revelar sua identidade a seus irmãos, pediu aos egípcios que saíssem: “Quero ficar sozinho com meus irmãos”. Acho que isso acontecerá no final: Jesus vai revelar-se ao povo judeu dentro de um contexto judaico, sem interferência das denominações cristãs.

Todos nós apreciamos o que os missionários têm feito. A maioria dos crentes judeus da minha geração tornou-se crente por meio de um missionário cristão, um pastor ou uma pessoa cristã, o que apreciamos. Mas agora já amadurecemos. Entretanto, os missionários cristãos nunca nos disseram: “Agora vocês são independentes e podem tomar suas próprias decisões. Confiamos em vocês.” Isso aconteceu na África, na China, mas não com os judeus. Portanto, o melhor seria agora que eles voltassem para casa. Acredito que podemos apresentar Jesus ao nosso povo de maneira bem eficiente.

Por outro lado, eu gostaria muito que os cristãos viessem a Israel! Acho absolutamente necessário que os cristãos venham visitar o país e conheçam a terra, aprendam com os crentes judeus, com eles se confraternizem e lhes prestem apoio político, espiritual e emocional. Isso é realmente necessário e importante. O amparo dos cristãos a Israel é de suma importância, mas é algo bem diferente de enviar missionários que dominam os crentes locais, em vez de tratá-los como irmãos em Yeshua.

Todas as congregações judaicas estão crescendo, não só numérica (agora há cerca de 100 congregações) mas também espiritualmente, e a unidade está aumentando entre todos os crentes judeus no país. Creio que isso é só o começo. Quando me tornei crente em 1962, havia menos de 50 crentes judeus. Hoje, consideramos que há pelo menos 7 mil. É um tremendo crescimento! Se esse ritmo continuar nos próximos 20 anos, teremos milhões de crentes judeus em Israel!
 
 

2 comentários:

chrislepel disse...

Eu também sou aluno do Josef Shulam e do ensinando de Sião

Pr. Jose Vicente da Silva disse...

Que maravilhosa entrevista, gloria a Deus pela vida de Josef Shulam e pelo que ele representa para o reino de Deus, gloria a Deus pola sua posição cristã pois nao faz como muitos que se acham detentores da verdade absoluta querendo que outros o sigam como se eles fossem o messias, precisamos nos unir, sem preconceito denominacional, doutrinario, temos que defender o reino de Deus e a doutrina de Jesus e nao uma donominação.